O Campeonato Paulista, carinhosamente conhecido como Paulistão, não é apenas um torneio de futebol; é um verdadeiro patrimônio do esporte brasileiro. Reconhecido como um dos estaduais mais disputados e competitivos do país, ele se destaca por reunir os “quatro grandes” – Santos, Palmeiras, São Paulo e Corinthians – além de clubes como o Red Bull Bragantino, que hoje brilham na Série A do Campeonato Nacional. Pouca gente sabe, mas este campeonato celebra em 2024 seus 120 anos, sendo a primeira competição oficial de futebol e o primeiro Estadual do Brasil. Sua rica trajetória reflete a evolução do futebol no país, transformando-se de um passatempo exclusivo da elite em uma paixão que move multidões. Convidamos você a mergulhar na história de como a competição surgiu e se tornou o que é hoje, moldando o cenário esportivo paulista e nacional.
A Gênese Elitista e os Primeiros Passos
No início do século XX, o futebol em São Paulo começou a se desenvolver paralelamente ao crescimento do estado, mas em um contexto sem federações ou times profissionais. Quem ditava as regras do esporte eram as figuras mais influentes da época, em especial os poderosos Barões do Café. Em 1901, um marco fundamental foi a criação da Liga Paulista de Futebol (LPF), a primeira entidade do futebol paulista, responsável por organizar o Campeonato Estadual. O ano seguinte, 1902, testemunhou o nascimento do primeiro Paulistão. No entanto, por ser comandado pela elite cafeeira, o campeonato era extremamente elitizado, refletindo na formação dos clubes pioneiros. Os cinco primeiros times a surgirem em São Paulo foram o São Paulo Athletic, o Internacional, o Mackenzie, o Germânia e o Paulista, com o São Paulo Athletic conquistando o título da edição inaugural. Por aproximadamente uma década, o Paulistão permaneceu um torneio exclusivo para as classes mais abastadas, com pouca ou nenhuma participação popular.
A Chegada da Democracia e o Nascimento dos Gigantes
Por volta de 1910, o cenário do futebol paulista começou a mudar. Com o início da democratização do esporte, surgiram conflitos internos na LPF: alguns defendiam a popularização, enquanto outros insistiam no elitismo. A chegada de clubes mais populares, como o Clube Atlético Ypiranga, formado por operários, marcou o início de uma nova era. Por muito tempo, o Paulistano, composto pelos filhos das famílias mais ricas, dominou o futebol no estado. Contudo, a vinda do Corinthians da Inglaterra para uma turnê no Brasil revelou um nível de jogo superior, inspirando a fundação do Sport Club Corinthians Paulista por um grupo de trabalhadores em 1910. Quatro anos depois, em 1914, nascia o Palestra Itália, o que hoje conhecemos como Palmeiras. Com a ascensão desses times populares, a LPF se dividiu. Os clubes elitistas recusavam a participação dos novos times, causando uma polarização. A tensão escalou quando a escolha do campo para o campeonato virou pauta, culminando no abandono da LPF pelo Paulistano, que então fundou a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA). Por um tempo, o futebol paulista teve campeonatos paralelos, organizados pela LPF e pela APEA, gerando confusão e uma rica história de rivalidade, como podemos ver em artigos sobre grandes clássicos do futebol brasileiro.
Desafios e Transformações: Crises, Gripe e Profissionalização
A década de 1910 e 1920 foi de grandes turbulências e transformações para o futebol paulista. Em 1917, a Liga Paulista de Futebol (LPF) perdeu força, e a APEA se consolidou como a única entidade organizadora. A ideia de um campeonato elitista dava lugar à inclusão de clubes como Corinthians e Palestra Itália. No entanto, em 1918, uma crise externa abalou o futebol: a chegada da Gripe Espanhola. A epidemia levou ao cancelamento do Campeonato Paulista na metade e à redução do tempo das partidas para apenas 20 minutos, um fato pouco conhecido. Raimundo Marques, um dos fundadores do Santos Futebol Clube, infelizmente foi uma das vítimas. Superada a pandemia, um novo debate dividiu o futebol: amadorismo versus profissionalismo. Mais uma vez, o Paulistano, avesso à profissionalização, rompeu com a APEA em 1926, criando a Liga dos Amadores de Futebol (LAF), levando a novos campeonatos paralelos até 1929. Contudo, a profissionalização já era uma realidade inegável, e a LAF, junto com o departamento de futebol do Paulistano, chegou ao fim. A Crise de 1929, ao afetar a elite cafeeira que bancava o esporte, também contribuiu para o fim do elitismo no futebol paulista, abrindo caminho para uma era mais popular e justa.
A Consolidação e a Lei de Acesso
A profissionalização do futebol foi oficialmente consolidada em 1933, ano que marcou o primeiro Campeonato Paulista profissional. No entanto, a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) inicialmente não reconheceu o profissionalismo, incentivando os grandes clubes a deixarem a APEA para ingressar na recém-formada Liga de Futebol do Estado de São Paulo. Isso causou mais uma divisão, com Corinthians e Palestra Itália ficando de fora de algumas competições da APEA em 1935 e 1936. Apenas no ano seguinte, as coisas se acalmaram: a APEA foi extinta, e a Liga de Futebol do Estado de São Paulo assumiu o controle total. Para a democratização ser completa, era crucial a inclusão de novos clubes e de equipes que jogavam em outras séries do estadual. A verdadeira virada veio com a Lei de Acesso, implementada em 15 de janeiro de 1948, garantindo ao campeão da segunda divisão profissional o direito de subir para a primeira. O XV de Piracicaba foi o primeiro a se beneficiar, um feito tão marcante que se tornou estrofe em seu hino. Além disso, a influência dos imigrantes, especialmente os italianos, foi vital. O Palmeiras, por exemplo, foi fundado por jovens italianos para representar a colônia. Clubes de outras províncias italianas também surgiram, e a presença de descendentes de italianos, como Anfilóquio Guarisi Marques, o Filó, que jogou pela Itália e foi campeão da Copa do Mundo de 1934, reforça essa integração cultural no futebol. O lendário Estádio Municipal do Pacaembu, construído em 1940, se tornou um símbolo dessa paixão, abrigando grandes jogos e atualmente o Museu do Futebol. Para saber mais sobre a história do futebol brasileiro e seus campeonatos, você pode visitar futebolbrazil.com.br.
Momentos Marcantes e Recordes Inesquecíveis
Por muitos anos, antes da criação do Campeonato Brasileiro, o principal torneio nacional era o Torneio Rio-São Paulo, que surgiu em 1933 e, a partir dos anos 1950, passou a ser anual. Em 1967, ele foi ampliado e transformado no Torneio Roberto Gomes Pedrosa, um embrião do que viria a ser o Campeonato Brasileiro em 1971. O Paulistão, ao longo de sua existência, produziu momentos e recordes que entraram para a história. O extinto Paulistano detém o recorde de maior campeão em sequência, com um tetracampeonato entre 1916 e 1919. Recentemente, o Corinthians quase igualou o feito, mas perdeu para o Palmeiras em 2020. O maior artilheiro de uma única edição do Paulistão é ninguém menos que Pelé, que marcou impressionantes 58 gols em 1958. Em 1977, o Corinthians protagonizou um dos maiores públicos da história do Morumbi e do Paulistão, com mais de 146 mil torcedores na final contra a Ponte Preta, que encerrou um jejum de 23 anos sem títulos importantes. Entre os maiores campeões, o Corinthians lidera com 30 títulos, seguido pelo Palmeiras com 23, e São Paulo e Santos ambos com 22 títulos. A História do Campeonato Paulista é, de fato, muito mais do que a de um simples estadual; é a narrativa da profissionalização e da democratização do futebol brasileiro, um legado de paixão, disputa e momentos inesquecíveis que continua a inspirar gerações de torcedores.












