O lendário estádio de La Bombonera, a icônica casa do Boca Juniors, amanheceu cercado por grades. O cenário, habitualmente vibrante, agora respirava um ar de luto e respeito profundo. Era a manhã de quinta-feira (9) e a nação xeneize se preparava para a dolorosa despedida de uma de suas maiores lendas: o técnico Miguel Ángel Russo, que havia falecido na quarta-feira, aos 69 anos.
Longe da euforia ensurdecedora dos dias de jogo, a atmosfera em torno do clube era de reverência. Não havia bandeiras agitando freneticamente ou faixas celebratórias. Em seu lugar, um clima de profunda contemplação pairava no ar, ocasionalmente quebrado por um grito solitário de incentivo, que parecia mais uma prece do que um canto de torcida.
Até mesmo os sons da cidade pareciam participar da homenagem. Um caminhão de entrega, ao passar, buzinou prolongadamente, um gesto simples de respeito que tocou a fila de torcedores. Vestindo as tradicionais camisas azuis e amarelas, eles aplaudiram em uníssono, e o grito de “Russo, Russo!” irrompeu espontaneamente, vindo do coração de cada um, um eco da gratidão e da saudade.
Uma fila silenciosa, com cerca de cem pessoas, aguardava pacientemente para adentrar o saguão do clube. O espaço foi transformado em uma singela capela, um local sagrado para que todos pudessem dar seu último adeus a “Miguelo”. O velório, um momento de profunda emoção, se estenderia até as 22h (horário local e de Brasília), com uma breve continuação na manhã de sexta-feira (10).
Dentro das paredes do clube, a tristeza pela perda de um ídolo se misturava a um orgulho imenso. O Boca Juniors teve a honra e o privilégio de ser o último clube em uma carreira profissional que se estendeu por mais de cinco décadas. Uma faixa imponente com a imagem de Russo e os troféus conquistados sob seu comando trazia a mensagem que resumia o sentimento de todos: “Para sempre em nossos corações”.
A Trajetória de um Vencedor Silencioso
Miguel Ángel Russo era, em essência, um homem de poucas palavras e frases diretas. Essa característica marcante, que se refletia em sua postura discreta à beira do campo, não diminuía a profundidade de sua liderança. Pelo contrário, sua comunicação concisa e objetiva muitas vezes transmitia mais força e clareza do que longos discursos.
Ele dedicou mais da metade de sua vida ao futebol, passando impressionantes 36 temporadas à beira do campo. Essa longevidade é um testemunho de sua paixão, resiliência e constante busca pela excelência. Sua carreira foi um mosaico de desafios e glórias, com passagens significativas por alguns dos mais renomados clubes argentinos.
Além do inesquecível período no Boca Juniors, Russo deixou sua marca indelével no Rosario Central e no Estudiantes de La Plata. Em cada um desses clubes, ele construiu equipes sólidas, inspirou jogadores e conquistou o respeito das torcidas. Houve até um momento em que esteve perto de comandar a seleção argentina, um reconhecimento de sua capacidade em nível nacional.
O primeiro grande título de sua carreira na primeira divisão veio com o Vélez Sarsfield, na conquista do Clausura de 2005. Essa vitória foi um divisor de águas, solidificando sua reputação como um estrategista astuto e um técnico capaz de montar equipes competitivas, transformando talentos individuais em um coletivo forte.
Mas foi em 2007 que Miguel Ángel Russo alcançou o pináculo de sua trajetória. A convite de ninguém menos que Diego Maradona, ele assumiu o comando do Boca Juniors. Naquele ano mágico, guiou o clube à glória máxima, conquistando a Copa Libertadores de 2007. Essa não foi apenas a sua maior conquista pessoal como técnico, mas um momento de êxtase para a torcida Xeneize, que celebrava com fervor mais uma taça continental.
A campanha da Libertadores de 2007, sob a batuta de Russo, é lembrada como uma das mais consistentes e memoráveis. O time do Boca demonstrou um futebol pragmático e eficaz, superando adversários poderosos com determinação e inteligência tática. Aquele título não apenas reforçou a hegemonia continental do clube na época, mas também eternizou o nome de Russo na galeria dos grandes ídolos boquenses.
O Legado Inapagável de um Ícone
Para Miguel Ángel Russo, o Boca Juniors representava mais do que um emprego; era um lar, um palco para seus maiores triunfos e um lugar onde o respeito mútuo entre técnico, jogadores e torcedores era inabalável. A faixa de homenagem exibida na Bombonera não era um simples protocolo, mas um reflexo autêntico do carinho e da gratidão que o clube e sua fervorosa torcida sentiam por ele.
A tristeza da sua partida se entrelaçava com o imenso orgulho de ter visto “Miguelo” no banco de reservas até os seus últimos dias. Sua figura, embora discreta, era uma fonte constante de inspiração. Ele deixou uma marca indelével, ensinando que o sucesso é construído sobre pilares de trabalho árduo, integridade e uma comunicação clara, mesmo quando expressa em poucas e certeiras palavras.
Ao longo de sua vida, Russo enfrentou desafios com a mesma resiliência que demonstrava à beira do campo. Em 2017, foi diagnosticado com câncer de próstata. Embora o Boca Juniors tenha mantido discrição sobre sua condição de saúde, sabe-se que ele lutou bravamente contra a doença, um testemunho de sua força e caráter inabalável.
Miguel Ángel Russo transcendeu a figura do simples técnico. Ele foi um mentor, um líder por excelência e, acima de tudo, um símbolo de dedicação e paixão pelo futebol. Sua partida deixa um vazio imenso no cenário esportivo, mas seu legado permanecerá vivo e vibrante nas páginas douradas da história do futebol argentino e, de forma especial, nos corações apaixonados dos torcedores do Boca Juniors.
As memórias de suas conquistas, a sabedoria contida em suas palavras e o exemplo de sua vida dedicada ao esporte serão eternamente celebrados. O grito que ecoou em La Bombonera – “Russo, Russo!” – continuará ressoando, lembrando a todos que, embora fisicamente ausente, a lenda de Miguel Ángel Russo é imortal e seu espírito jamais será esquecido.
*Com informações da AFP*
Publicado por Nátaly Tenório












