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Copa do Mundo de 1934: A Final Marcada Pelo Fascismo e Polêmicas Históricas

Após a euforia da primeira Copa do Mundo em 1930, a edição de 1934 prometia elevar o torneio a um novo patamar. No entanto, o que se viu foi um evento profundamente influenciado pela política, com uma final europeia carregada de controvérsias, ameaças veladas e uma atmosfera de tensão inigualável. Mergulhe conosco nos bastidores da Copa do Mundo de 1934, onde o futebol encontrou o poder de forma chocante.

A Itália como Sede e a Sombra do Fascismo

A escolha da Itália como sede para a segunda edição da Copa do Mundo, em 1934, não foi meramente esportiva. Dois anos antes, no processo eleitoral da FIFA, a Suécia era uma concorrente, mas rapidamente desistiu por alegar falta de condições financeiras. Foi nesse vácuo que o ditador fascista Benito Mussolini, um mestre na arte da articulação e propaganda, garantiu que a Itália teria os recursos necessários. Seu objetivo era claro e nada sutil: usar a Copa para promover o fascismo e suas ideologias grandiosas. O governo italiano não hesitou em investir cerca de três milhões de liras na organização do evento, um valor considerável para a época.

Mas não bastava sediar; a Itália precisava vencer. A mensagem de Mussolini para os jogadores e a comissão técnica era inequívoca e perturbadora: “Vocês ganham a Copa ou arcam com as consequências”. Um “incentivo” que ia muito além do espírito esportivo e que pairava como uma ameaça constante sobre a delegação italiana. A imprensa local, sob o comando do ditador, era instruída a publicar apenas notícias positivas sobre a seleção. Jornais que desobedecessem essa regra sofriam retaliações “leves”, como ter suas redações completamente depredadas, evidenciando o clima opressivo que cercava o torneio.

Boicotes e Eliminatórias Inéditas

A Copa anterior, em 1930, sediada no Uruguai, enfrentou um boicote massivo de seleções europeias devido à longa e custosa viagem de navio. Em 1934, com o torneio na Europa, a situação se inverteu. O Uruguai, campeão em 1930, decidiu boicotar a Copa da Itália, alegando o desinteresse europeu na edição anterior. Além disso, a Inglaterra, outra força tradicional do futebol, também não se deu ao trabalho de disputar as eliminatórias, justificando que a Copa não possuía a mesma relevância de seus torneios internos entre as nações do Reino Unido – uma postura que, talvez, hoje os ingleses repensem.

Com 32 seleções inscritas e um regulamento que previa apenas 16 participantes, as eliminatórias se tornaram uma necessidade histórica. Pela primeira vez, a Copa do Mundo teve uma fase classificatória. No continente sul-americano, o Brasil e a Argentina garantiram suas vagas sem sequer entrar em campo, após o Chile e o Peru desistirem. Ao final do processo, 12 vagas ficaram com países europeus, duas com a América do Sul (Brasil e Argentina), uma com o Egito (representando a África e Ásia) e uma com os Estados Unidos, que selaram sua classificação apenas três dias antes do início da competição, em um jogo dramático.

O Mata-Mata Implacável e as Polêmicas Iniciais

A Copa do Mundo de 1934 começou em 27 de maio com um formato brutal de mata-mata. Não havia fase de grupos; as 16 seleções se enfrentavam em jogos eliminatórios. Quem vencesse avançava para as quartas de final; quem perdesse, voltava para casa imediatamente. Em caso de empate, uma prorrogação de 30 minutos era disputada. Se o empate persistisse, um novo jogo aconteceria no dia seguinte – uma regra impensável nos dias de hoje, especialmente considerando o intenso verão europeu e a ausência de pênaltis, “coisa para os fracos”, segundo a mentalidade da época.

Logo na primeira rodada, todas as seleções não europeias, incluindo o Brasil e a Argentina, foram eliminadas, pavimentando o caminho para uma Copa dominada pelos anfitriões e seus vizinhos. Nas quartas de final, a Itália enfrentou a Espanha em uma partida que se tornou um símbolo das controvérsias do torneio. O jogo terminou em 1 a 1, forçando uma partida de desempate no dia seguinte. A Itália venceu por 1 a 0, mas o resultado foi amplamente questionado. O árbitro suíço Reimers anulou dois gols espanhóis, gerando tanta polêmica que acabou sendo expulso do quadro de árbitros da Federação Suíça. Mais tarde, na semifinal contra a Áustria, a Itália venceu novamente por 1 a 0, mas os austríacos reclamaram de uma suposta falta antes do gol italiano – com as ameaças de Mussolini, seria impensável que um VAR (se existisse) anulasse um gol italiano. Enquanto isso, a Tchecoslováquia vencia a Alemanha por 3 a 1 na outra semifinal, garantindo a vaga na grande decisão.

A Grande Final: Itália vs. Tchecoslováquia e o Gosto Amargo da Glória

A tão esperada final da Copa do Mundo de 1934 foi disputada em Roma, no estádio do PNF (Partido Nacional Fascista), com mais de 50 mil espectadores. Mussolini estava presente, exercendo sua notória influência sobre o ambiente e, possivelmente, sobre os árbitros. A seleção italiana contava com jogadores fortes, incluindo vários sul-americanos naturalizados. Entre eles, os argentinos Raimundo Orsi e Luis Monti, e o brasileiro Anfilóquio Guarisi, o Filó. Monti, inclusive, já havia defendido a Argentina na final de 1930 e lá também havia sofrido ameaças de morte. Agora, jogando pela Itália, as ameaças vinham de Mussolini, mostrando que a carreira de Monti foi, digamos, “agitada”. O Filó, apesar de não ter jogado a final, entrou para a história como o primeiro brasileiro campeão mundial. Para mais sobre a história das Copas e seus grandes nomes, confira este artigo.

O primeiro tempo da final terminou em 0 a 0, sob um calor escaldante de mais de 40 graus, que inibia o ritmo do jogo. No segundo tempo, aos 35 minutos, Antonín Puč abriu o placar para a Tchecoslováquia, para o desespero de Mussolini e dos jogadores italianos. No entanto, apenas um minuto depois, o argentino naturalizado Raimundo Orsi empatou o jogo. E, para variar, com mais uma polêmica: os tchecos reclamaram que o meia Giovanni Ferrari dominou a bola com o braço antes de tocar para Orsi. O árbitro sueco Ivan Eklind, que não consultou o bandeirinha, validou o gol. É importante notar que o árbitro e os bandeirinhas haviam feito a saudação fascista em direção a Mussolini antes do jogo – um detalhe bastante esquisito, sem que se saiba se foi por simpatia ou coação.

Com o placar em 1 a 1 ao final do tempo normal, a prorrogação foi inevitável. Aos cinco minutos do primeiro tempo extra, Angelo Schiavio chutou para o gol, a bola desviou no zagueiro tcheco e encobriu o goleiro, selando o 2 a 1 para a Itália. Os italianos se fecharam na defesa e garantiram o título. A Itália se sagrava campeã do mundo pela primeira vez, para alívio dos jogadores e da comissão técnica que, sem dúvida, ganharam mais alguns anos de vida. Apesar do vice-campeonato, os tchecos foram recebidos como heróis em Praga. A vitória deu à Itália moral e confiança para a Copa de 1938, um capítulo que abordaremos em nosso próximo vídeo.

Conheça mais detalhes sobre a Copa de 1934 e seu contexto político no UOL Esporte.

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