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Futebol e Fanatismo: Quando a Paixão Clubística Supera a Bandeira

O futebol e fanatismo, com sua capacidade única de despertar emoções profundas, constantemente nos confronta com dilemas fascinantes. Um dos mais persistentes e acalorados é a questão do futebol e nacionalismo: quando um clube brasileiro compete internacionalmente, deveriam os torcedores rivais do mesmo país torcer a favor ou contra? Esse debate, amplificado pelas redes sociais, levanta uma pergunta crucial: o que deve prevalecer, o orgulho nacional ou a fervorosa rivalidade clubística?

Essa discussão ganhou grande destaque em 2019, quando o Flamengo chegou à final da Copa Libertadores e conquistou o título. Similarmente, em 2022, a participação do Palmeiras na final do Mundial de Clubes de 2021 contra o Chelsea reacendeu a polêmica. Em ambos os casos, o país se dividiu, com muitos defendendo que o sentimento nacionalista deveria transcender qualquer rivalidade interna, enquanto outros argumentavam que a lealdade ao clube era intransponível. Essa análise busca mergulhar nas complexidades das identidades futebolísticas e nacionais, explorando seus pontos de convergência e divergência.

A Complexa Dança entre Torcida, Futebol e Fanatismo

Torcer por um time vai muito além de simplesmente escolher um lado em campo; é uma prática profundamente identitária. Conforme Simone Hashigutti aponta, o ato de torcer é uma forma de o indivíduo se manifestar como sujeito social, carregado de significados e não meramente irracional. A identificação com um clube emerge de uma inscrição em redes de significação, onde o “sentido faz sentido” e o sujeito se filia a uma comunidade que o reconhece e é reconhecida por ele. É nesse espaço que o futebol e nacionalismo podem tanto se entrelaçar quanto se chocar.

A era digital e as redes sociais intensificaram essa identificação. A internet permite que torcedores, mesmo distantes fisicamente de seus clubes ou de outros fãs, mantenham-se conectados e atualizados. Essa conexão cria coletivos de torcidas e comunidades virtuais, oferecendo um senso de pertencimento. Muitas vezes, essa identificação clubística se torna mais forte do que a conexão com a região de moradia, pois o torcedor encontra em seus “aliados virtuais” uma linguagem e paixão em comum, conforme a ideia de Manuel Castells sobre a sociedade em rede. Para aprofundar ainda mais sobre a cultura do futebol brasileiro, confira outros artigos em nosso blog.

Clubes como “Nações Imaginadas”

Para entender as raízes do nacionalismo, o historiador Benedict Anderson propôs o conceito de “comunidades imaginadas”. Ele argumenta que as nações existem primeiramente no imaginário das pessoas, baseadas em sentimentos identitários e emoções. Essa perspectiva nos ajuda a compreender como uma torcida de futebol pode funcionar como uma verdadeira “nação”. O clube se torna um território imaginado, unindo pessoas por um sentimento identitário que as atravessa individual e coletivamente.

As palavras de Anderson, que descrevem como membros de uma nação jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, mas mantêm uma imagem viva de comunhão, se aplicam perfeitamente às torcidas. É por isso que ouvimos expressões como “Nação Rubro-Negra” (Flamengo), “O Bahia é o Mundo” ou nomes de organizadas como “Império Alviverde” (Coritiba). A figura dos jogadores também assume papéis quase míticos, sendo chamados de “reis”, “imperadores” ou “príncipes”, reforçando a ideia de hierarquia e poder dentro dessa “nação clubística”.

Historicamente, o futebol e nacionalismo já foram aliados em projetos políticos. No Brasil, Getúlio Vargas utilizou o futebol como ferramenta de construção de uma identidade nacional, especialmente após o sucesso da seleção na Copa de 1938. Essa associação instrumentalizou o esporte para fins governamentais, embora o futebol seja, por si só, um poderoso construtor de identidades e uma expressão cultural de grande impacto popular, que transcende a mera manipulação política. Para saber mais sobre como o futebol foi usado na era Vargas, você pode conferir este artigo no Brasil Escola.

O Veredito: Nacionalismo ou Paixão Clubística?

Ao articularem as reflexões de Benedict Anderson com a realidade do futebol, é possível entender as duas faces do debate entre futebol e nacionalismo. Aqueles que defendem o apoio ao clube do país em competições internacionais são influenciados por uma construção de nacionalismo ligada ao território geograficamente delimitado. Já os que priorizam a rivalidade interna e torcem contra um rival, são atravessados por uma ideia de nação ligada ao seu clube do coração. Não há, portanto, um nacionalismo “correto” ou “errado”, mas sim diferentes construções identitárias.

Arlei Sander Damo descreve o jogo de futebol como um “ritual disjuntivo”, onde a oposição, a separação e a exclusão são inerentes. Nesse contexto, a rivalidade entre os “clãs” futebolísticos, como sugere Igor José Renó Machado, pode de fato subverter o nacionalismo. A rivalidade é parte essencial da lógica do futebol, construída na história dos clubes e alimentada pela paixão. Ela não se limita ao amor pelo próprio clube, mas também à aversão pelo seu oposto.

Para muitos torcedores fanáticos, a ideia de apoiar um rival, mesmo em um cenário internacional, é uma profunda incongruência com suas identidades clubísticas. Essa identidade é moldada pela diferença e oposição, onde a vitória do seu clube e a derrota do adversário, mesmo um compatriota, são pilares fundamentais. A rivalidade, com suas brincadeiras e cânticos, é vista como uma “violência simbólica” que mantém o caráter democrático e a emoção do esporte.

Em resumo, as relações entre identidade nacional e clubística são complexas. Não existe uma forma “certa” ou “errada” de torcer, pois as percepções identitárias afetam os indivíduos de maneiras distintas. O futebol e nacionalismo podem ser aliados ou antagonistas, dependendo da intensidade da paixão clubística e da forma como cada torcedor manifesta seu senso de pertencimento.

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