O cenário do futebol brasileiro está em constante ebulição, e as recentes declarações de Leonardo, ex-jogador e renomado dirigente, trouxeram à tona uma discussão crucial sobre os rumos da modalidade no país. Em uma entrevista exclusiva, ele não poupou críticas e ofereceu uma perspectiva lúcida sobre temas que vão desde a figura de Neymar até a complexa gestão do futebol brasileiro, passando pela aguardada chegada de Carlo Ancelotti.
Leonardo argumenta que é preciso parar de dar tanta importância a certos temas, como a performance de Neymar. Para ele, a questão é simples: “Se um jogador não está bem, não está bem. Não adianta esse blá-blá-blá”. Essa visão pragmática reflete uma busca por mais objetividade e menos sensacionalismo no esporte, colocando o desempenho em campo como prioridade absoluta. A chegada de Ancelotti é vista como um catalisador para essa normalização, um ponto central em sua análise.
A Realidade do Futebol Brasileiro: Além de Neymar e Ancelotti
A discussão se aprofunda quando o assunto é a estrutura que comanda o esporte. Leonardo é categórico ao afirmar que a visão de gestão no Brasil continua sendo primordialmente política, visando manter um poder e um status quo que persiste há mais de cem anos. “Esse sistema de gestão do futebol brasileiro, ele existe há 100 anos e ele nunca foi mudado”, ressalta, questionando a capacidade de renovação.
Ele aponta para a estagnação e a falta de critérios nas decisões. Exemplos como as votações unânimes na CBF, que elegem e destituem presidentes com a mesma facilidade, demonstram um sistema falho. A falta de diálogo com figuras importantes, como a recusa em receber Ronaldo, sublinha a ausência de um equilíbrio e a dificuldade em compreender os verdadeiros mecanismos de poder por parte do público. Apesar de considerar o tema “chato”, Leonardo o vê como absolutamente necessário para o futuro do esporte.
A crise recente no futebol nacional, com a espera por Ancelotti, é encarada como uma “trégua”. A esperança depositada no técnico italiano, apesar de compreensível, pode ser uma solução temporária, um “oxigênio” antes de uma nova Copa. A falta de uma consciência coletiva e de um plano de longo prazo para a gestão do futebol brasileiro é um ponto de preocupação para Leonardo, que não vê o surgimento de um “know-how inconsciente” como antes.
O Desafio da Gestão no Brasil: Modelos e Desunião
Não se trata apenas de criticar, mas de buscar soluções. Leonardo enfatiza a necessidade de formar dirigentes capacitados. Atualmente, muitos vêm de outros setores, sem o “know-how de gestão esportiva” que o Brasil ainda carece. Ele cita os casos de Flamengo e Palmeiras, que, embora bem-sucedidos por trazerem figuras do mundo corporativo, poderiam ser ainda melhores com uma gestão esportiva mais especializada.
Sobre modelos de clubes, como a SAF, Leonardo esclarece sua posição. Ele não defende um único modelo, usando o Real Madrid – uma associação sem fins lucrativos – como exemplo de sucesso global. Para ele, o ideal não é copiar, mas o Brasil criar sua própria identidade de gestão, algo que ainda não tem clareza. A disparidade criada por clubes de massa como Flamengo e Palmeiras, com sua força econômica e corporativa, gera uma concorrência desleal e uma quase hegemonia no cenário sul-americano.
A fragmentação em ligas como Libra e LFU, disputando direitos televisivos separadamente, é um sintoma dessa desunião e da dificuldade em agir “em prol do todo”. Leonardo lamenta a incapacidade de organizar uma liga forte e de ter um órgão regulador econômico, que estabeleça regras claras para os clubes e controle o que é feito, desde as categorias de base até o planejamento futuro. A falta de um “cérebro” para essa construção é um dos maiores entraves.
Formação de Líderes e a Visão de Futuro
Um dos pontos mais sensíveis levantados por Leonardo é a ausência de ex-jogadores em posições de gestão e treinamento. Ele compara a realidade brasileira com a Argentina, onde muitos ex-atletas se tornam treinadores ou dirigentes. Essa disparidade reflete uma questão cultural profunda: o estereótipo do jogador que “não sabe fazer mais nada” e a distância histórica entre jogadores e dirigentes, que são vistos como “inimigos”.
Para Leonardo, a solução passa pela união de forças. Ele compartilha sua experiência no Paris Saint-Germain, onde, ao assumir a direção, buscou um profissional com formação em Harvard e experiência em gestão. “Sem o Jean-Claude, eu não poderia administrar o clube. Agora com ele e ele sem mim, talvez menos ainda”, revela. Essa simbiose entre o conhecimento do campo e a expertise administrativa é fundamental para o equilíbrio e o sucesso.
A ausência de diretores esportivos na CBF, por exemplo, leva a escolhas de treinadores baseadas no populismo, sem critérios claros. Esse “achismo” resulta em perda de dinheiro, tempo e prestígio, como visto nas dificuldades de grandes clubes em encontrar estabilidade. A vinda de Ancelotti, por mais benéfica que seja, não resolve a falta de uma linha única que conecte a direção ao campo. Leonardo o descreve como alguém com uma capacidade ímpar de normalizar ambientes, criando uma liderança tranquila e harmoniosa, que se adapta ao contexto brasileiro.
Contudo, a escolha de Ancelotti não deve ser vista como uma forma de “ser maior que Neymar”. Leonardo reforça que a decisão de convocar ou não o craque será pautada pela lucidez de Ancelotti em julgar o impacto na construção do time e do grupo. O futebol brasileiro precisa ir além de nomes isolados e focar na construção de um futuro sólido através de uma reestruturação da gestão, com critério, planejamento e união de todos os elos do esporte.












