Testemunhar o auge de dois dos maiores jogadores da história do futebol, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, em tempo real, vivenciando a intensidade de seus confrontos diretos, foi uma experiência singular. A rivalidade entre eles não só definiu uma era, mas também elevou os padrões do esporte a patamares inimagináveis. Era como ter um palco de lendas no quintal de casa, com cada jogo se tornando um capítulo na história do futebol.
A percepção sobre qual dos dois era o melhor variava geograficamente. Enquanto em Madrid a preferência pelo Cristiano Ronaldo era evidente, o restante da Espanha e a maioria dos torcedores neutros não demonstravam tanta polarização, frequentemente inclinando-se para Messi. Em Portugal, a paixão nacional pelo seu capitão era inegável, criando uma necessidade de vê-lo como o melhor, mesmo com a consciência da genialidade do argentino.
A Evolução Extraordinária de Dois Gênios
O percurso de Cristiano Ronaldo é um testemunho de dedicação implacável. No início de sua carreira, como visto em jogos antigos da Eurocopa, ele era um talento bruto, um pontinha promissor. No entanto, sua capacidade de evolução foi absurda. Ele se transformou de um jogador habilidoso em uma máquina de gols, um atleta completo que dominou diferentes ligas e competições. É essa metamorfose que o distingue.
Já Lionel Messi parecia predestinado desde cedo. Vídeos de sua passagem por La Masia revelam um jogador com habilidades praticamente idênticas às de sua fase adulta. Messi nasceu com um dom, uma técnica inata que o tornava único. A fluidez de seus movimentos, a visão de jogo e a finalização eram parte de sua essência desde sempre.
É injusto, porém, ligar Cristiano apenas ao trabalho e Messi somente ao talento. Ambos exigiram esforço monumental. Um jogador bom, mesmo com trabalho árduo, dificilmente alcançaria o nível de um Cristiano Ronaldo, que possuía uma base técnica e física excepcional. Da mesma forma, pensar que Messi não precisou de trabalho é um equívoco. Até 2010, ele não era um exímio cobrador de faltas, mas aprimorou essa técnica, demonstrando uma constante busca por excelência e trabalho duro para expandir seu jogo.
A Rivalidade que Moldou uma Era
A coexistência de Messi e Cristiano Ronaldo foi o motor de uma era. Um puxava o outro, criando um ciclo vicioso de superação. Quando Cristiano fazia dois gols, Messi queria fazer três. Se um conquistava a Liga dos Campeões em um ano, o outro almejava o mesmo no ano seguinte. Essa competição mútua os manteve motivados por mais de 15 anos, uma longevidade rara no esporte de alto nível.
Os confrontos diretos entre eles eram momentos aguardados. Embora não tenham se enfrentado em tantas finais de Champions League quanto se desejava – o que seria o auge da rivalidade – os clássicos entre Real Madrid e Barcelona eram espetáculos à parte. Lembro-me de um jogo em Camp Nou onde Cristiano Ronaldo, com um a menos, virou a partida para o Real Madrid nos minutos finais, um feito absurdo.
Ver Messi jogar era uma experiência quase surreal. Muitas vezes, parecia entediado em campo, escorado na ponta, tocando de lado. Mas se os outros não resolvessem, ele se ligava e, aos 15 minutos do segundo tempo, mudava o jogo, marcando um ou dois gols e definindo o placar. Seus gols contra o Bayern de Munique, com o drible no Boateng, ou a falta contra o Liverpool, que fez o goleiro Alisson quase alcançar, são exemplos da sua genialidade repentina e avassaladora.
O Debate: Melhor Versus Maior na História do Futebol
A discussão sobre o “melhor” e o “maior” da história do futebol sempre surge ao falar de Messi e Cristiano Ronaldo. Se considerarmos apenas o desempenho em campo na era moderna, é inegável que Messi se destaca como o melhor jogador que já vimos. Sua capacidade de jogar em um nível tão alto, com todos os números e conquistas, em um esporte que evoluiu drasticamente, é algo sem precedentes.
O futebol de hoje é muito mais tático e defensivo. Treinadores de elite passam semanas montando esquemas para parar Messi, e por uma década, ninguém conseguiu fazê-lo de forma consistente. A disponibilidade de vídeos, mapas de calor e estudos táticos tornam o jogo infinitamente mais difícil para os atacantes do que em épocas passadas. A longevidade e a supremacia de Messi nesse cenário são notáveis.
No entanto, o “maior” da história, para muitos, continua sendo Pelé. Sua grandeza não reside apenas em números e títulos, mas no impacto transformador que teve sobre o esporte. Pelé pegou um futebol que era mais bruto e o elevou, tornando-o belo, atrativo e ofensivo. Ele popularizou o futebol mundialmente em uma época onde o acesso à informação e aos jogos era limitado. O Santos de Pelé viajava o mundo, enfrentando os maiores clubes europeus, impulsionado pela demanda de vê-lo jogar.
A imagem de Pelé ainda ecoa globalmente, como visto em lojas gigantes em Nova York ou até mesmo na menção de figuras públicas como Donald Trump, que o lembrava de sua infância. A imagem que Pelé levou do futebol e do Brasil para o mundo é um legado incomparável. Embora o esporte evolua constantemente, com os atletas de hoje sendo tecnicamente mais preparados, o papel de Pelé na construção do futebol como o conhecemos é o que o consagra como o maior de todos os tempos. Messi, por sua vez, é o expoente máximo da excelência técnica e da performance em uma era de desafios sem precedentes.












